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O MEU MAIO DE 68
escrito por Teresa Rita Lopes
Lembro-me dessa já longínqua Primavera como
de uma fogueira simbólica para onde os jovens, de corpo e de
espírito, tentaram atirar a civilização burguesa, com seus valores e
tabus.
Os meus companheiros nessa aventura foram o
António José Saraiva e a Maria Lamas, que a minha memória condecora
como a Passionária de Maio 68. Apesar de eu ser, nessa altura, uma
jovem e eles já pessoas respeitáveis, eram eles os mais empolgados.
Eu assistia, com exaltação mas também com distância e, até, certa
melancolia: aquela não era a minha revolução, a que me levaria de
volta ao meu país.
Mas corria para as manifestações com o
António José Saraiva (a Maria Lamas já não se podia permitir essas
correrias). Vimos desempedrar ruas e fazer barricadas num abrir e
fechar de olhos. Conseguimos sempre fugir no último momento, quando
a avalanche dos polícias avançava. (Se a polícia nos apanhasse,
recambiáva-nos para o país de origem.)
O camarote de eleição era a janela da Maria
Lamas, no seu minúsculo quarto de hotel, o Saint Michel, na rua
Cujas, em pleno Bairro Latino, a dois passos da Sorbonne e do
Boulevard Saint Michel, nessa altura completamento desempedrado ( as
pedras, os “pavés” serviam, como se sabe, para atirar aos polícias).
Lembro-me de uma noite em que os manifestantes pregavam fogo a
alguns carros e mesmo a uma livraria em baixo da janela da Maria
Lamas ( felizmente, um segundo andar). Eu e o Saraiva insurgimo-nos,
gritámos “Isso não!”. A Maria Lamas puxava-me para dentro pela
fralda da blusa, porque eles começaram a atirar-nos “pavés”, mas
resplandecia. Limitou-se a ir pôr o mais longe possível da janela os
seus papéis ameaçados…
Afinal dava irracionalmente largas ao seu
instinto de liberdade, que todos os homens têm no fundo de si e que
se manifesta de muitas maneiras (nascer é a primeira rejeição de um
espaço fechado). Eu queria pôr limites às chamas, como se isso fosse
possível.
O Maio 68 não foi francês, como a revolução
francesa: o vulcão rebentou naquele chão mas por acaso, os vulcões
não têm nacionalidade. Aliás, um slogan muito gritado, era: “On s’en
fout des frontières”! Não esquecer que o líder dos jovens
inssurrectos , Daniel Conh-Bendit, era, como diziam os seus
detractores, “judeu alemão”. É verdade, foi esse jovem judeu alemão
que desencadeou os gestos que, nessa Primavera de 1968, puseram a
França a arder. Tudo aconteceu de repente: Uma insurreição de
estudantes contra a ocupação da Sorbonne pela Polícia. É claro que
os grupos políticos começaram logo a querer assinar o incêndio, e a
tentar controlá-lo e administrá-lo.
Maio 68 foi um sonho em forma de fogueira. O
seu líder era um rapaz sardento, de 23 anos, com dois olhinhos muito
vivos, redondos como dois berlindes. Não tinha nada de herói nem de
intelectual. Assistimos a 1 de Junho à conferência de imprensa que
deu num anfiteatro da Sorbonne, apesar de fugido à Polícia, que
contra ele tinha emitido uma ordem de prisão. Foi um hapening, como
na altura se dizia, com os circunstantes a manifestarem-se, a
opinarem. Lembro-me de ver entrar o Dany – como era chamado,
acompanhado pelo seu estado maior. Saraiva escreve no seu “diário de
João Cândido”
(Maio e a Crise da Civilização Burguesa) “é
uma equipa desportiva que avança”: Eu acrescentaria: ou um grupo de
rock. Saraiva acrescenta: “ A 1 de Junho de 1968, em França, o líder
dos revolucionários é um moço de 23 anos contra um general que podia
ser seu bisavô”. O general tentava desdenhar dos acontecimentos
apodando-os de “chienlit” (à letra: cagadela na cama). Mas esse
fedelho fê-lo vacilar no seu pedestal.
Lembro-me de ouvir o general De Gaulle a
vociferar na rádio: “Je ne m’en irai pas!” (Não me vou embora!)
Dany, nessa célebre conferência de impressa,
rejeita a “organização” que estão a querer impor à revolução e que,
segundo ele, não deixaria de a desnaturar. Aquele moço de 23 anos
pressentia que o ímpeto revolucionário morre quando o querem meter
na gaiola de uma instituição. E que , por isso, o ímpeto dessa
Primavera tinha que ser fugaz, não se podia institucionalizar.
Recusava-se a ter um exército, não queria ser general, queria apenas
continuar a ser um guerrilheiro.
Confesso que gosto de ter visto a França
desabrochar a sua alegria orgíaca durante essa Primavera de 68 que
me reconciliou com os franceses, com quem andava de candeias às
avessas por me atirarem, às vezes, à minha cara triste de exilada,
um rancoroso “allez chez vous!”( volte para a sua terra!) Lembro-me
do permanente hapening que eram as ruas, a Sorbonne, o teatro Odéon
e tantos outros palcos improvisados, para onde quem quisesse podia
saltar e exprimir-se. Lembro-me de assistir, no Odéon, ao monólogo
de um homem tímido, género manga de alpaca, que nunca devia ter tido
voz activa nem na vida nem em palco nenhum, a exprimir-se, comovido,
para um público que o aplaudia calorosamente.
Durante estes acontecimentos, as pessoas não
falavam necessariamente de política, não falavam de, falavam,
falavam-se. Assim também nas esquinas das ruas, até altas horas.
O diálogo era a atitude revolucionária:
recordo um a que assisti entre polícias e paisanos, em plena
manifestação, quando os agentes da ordem cerravam fileiras,
couraçados, de viseiras e tudo, prontos a arremeter. Do lado oposto,
já barricados, os jovens incitavam-nos a mudar de campo, a não
atacar, a desobedecer.
Depois de um mês de greve geral, as chamas
extinguiram-se, a vida de todos os dias recomeçou. O Metro também.
Lembro-me do suspiro de alívio e ternura de uma francesa de
meia-idade: “ “Ah que c’est bon de retrouver notre petit metro!”
Depois, nas primeiras eleições, em 31 de
Junho, os franceses mostraram que não tinham ganho para o susto e
votaram decididamente à direita, gaulista, neste caso. O Governo
ganhou, a oposição perdeu mais de metade dos deputados.
Maio passou, ficou dele esse susto. As
cinzas dessa fogueira ritual levou-as o vento. Durante algum tempo
ficaram slogans nas paredes: “l’imagination au pouvoir”, “c’est
défendu de défendre », e muitos outros. Fizeram-se livros com eles.
Com algum optimismo , poderá dizer-se que o
fogo que irrompeu por essa cratera que então se abriu não morreu,
tem continuado a rebentar, aqui e ali, a crosta da rotina, com
preferência na Primavera… Por mim, só na nossa Primavera de 1974,
muito especialmente no primeiro 1º de Maio, vivi de corpo inteiro
esse Maio de 68 que em mim tinha ficado a germinar.
É verdade que, passada a Primavera, o
francês “moyen” (comum) fechou-se , de novo, na sua carapaça. Mas
fiquei a saber que, debaixo dessa crosta, estava vivo.
Álvaro de Campos diz, em “Gazetilha”, que
“Dos trotskys de qualquer colónia / Grega ou romana já passada, / O
nome é morto, inda que escrito.” E que só sobrevive “o parvo dum
poeta, ou um louco/ Que fazia filosofia, / Ou um geómetra maduro”. É
que “amanhã é dos loucos de hoje!”
Teresa Rita Lopes |